Por que champagne agrega valor?

 

O polêmico rei do camarote disse que apesar de preferir vodka, bebe champagne na balada por causa do status.

Que champagne agrega valor às festas a gente já sabia, mas pensei que seria interessante dar uma checada no que está além dessa noção básica.

Sabemos que champagne é um vinho branco espumante produzido na região de Champagne, no nordeste da França.

Vale lembrar que o vinho é uma das bebidas mais antigas da história em áreas de produção de uva (que não incluía o Brasil até o século XIX pelo menos).

Na Grécia Antiga, a uva fermentada era associada à imortalidade- diferente da carne que estava fadada ao apodrecimento, a uva continuava “a viver” na forma de vinho.
Com o Cristianismo, a aura de imortalidade do vinho foi ao extremo, uma vez que passou a ser associada ao sangue de Cristo.

Apesar do valor religioso, o vinho era (e continua sendo) uma bebida bastante comum na Europa (sobretudo nas chamadas Europa Mediterrânea e Ocidental).

Em seu “Tratado dos Excitantes Modernos” escrito em 1838, o literato francês Honoré de Balzac apresenta o vinho como um “excitante das classes inferiores”. Já o champagne, como uma bebida que simboliza a amizade.

Parece que a distinção entre vinho e champagne remete às cerimônias de coroação dos reis da França em Reims, cidade da região de champagne. Por isso, desde o século X, o champagne tem fama na França de bebida dos reis.

O filósofo Michel Onfray ressalta o papel das bolhas do champagne no período Barroco em que a bebida foi aperfeiçoada pelo beneditino Dom Pérignon e exaltada na corte do rei Luís XIV. Segundo ele, uma época magnífica para a valorização da bolha (em termos filosóficos):

“A bolha representa o isolamento em seu meio, a perfeição, a autonomia, a enteléquia [termo de Aristóteles para indicar o ato final ou perfeito], como dizem os filósofos. Ela é um mundo em si num mundo próprio. [...] As bolhas do champagne são metáforas, seja da miséria do homem sem Deus segundo Pascal, seja da teoria spinozista do determinismo. Imediatamente vistas, imediatamente desaparecidas: a efervescência é o análogo da existência”.

A fama do champagne na corte de Luis XIV se estendeu para além- França. Para o diplomata francês Talleyrand que viveu na passagem do século XVIII para o XIX, o champagne era a bebida da civilização.

E foi com esse simbolismo que essa bebida chegou no Brasil com os nobres portugueses.

A bebida ficou tão famosa no mundo inteiro, que a palavra champagne só pode ser utilizada atualmente para os vinhos produzidos originais da região de Champagne francesa. Qualquer vinho produzido de forma semelhante em outras localidades deve ser referido como espumante
(ops, acho que deveríamos mudar o nome do post “Banho de Champagne” para “Banho de Espumante”).

Desde 2008, há uma organização denomidada “Coteuaux, Maisons et Caves de Champagne”,  trabalhando em defesa da inscrição da “Paisagem do Champagne” na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO.

É importante ter em mente que essa história e esse valor social do champagne não é a última palavra. Há outras bebidas por aí, com outras histórias e outros valores. E quem sabe disso, tem mais liberdade de opção.

Até porque, a liberdade deveria valer bem mais do que o status…

Para saber mais:

ONFRAY, Michel. Pequena Teoria das Bolhas. In: A Razão Gulosa. Filosofia do Gosto. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

 

Mari

Sobre a Mari

Sou irmã da Carol e da Helena, e prima da Camila. Passo mais tempo estudando sobre comida do que cozinhando. Apesar disso, gosto muito de cozinhar e o faço como desculpa para reunir as pessoas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>